A Procissão dos Desconhecidos que Já Conheci

Imagem simbólica com figuras humanas em movimento lento, representando o poema ‘A procissão dos desconhecidos que já foram tudo’, de Dário Junior

  "A vida é uma longa perda de tudo o que amamos." – Victor Hugo

No devaneio de hoje, me peguei pensando sobre amizades ao longo da vida. Morei em duas cidades diferentes, em dois estados distintos. Agora, depois de dez anos na minha cidade atual, consigo enxergar com mais clareza como as relações – sejam elas de amizade, familiares ou qualquer outro tipo de vínculo – vão se transformando com o tempo.

Essa reflexão não tem a intenção de julgar ninguém, nem de causar desconforto ou cobrança. Na verdade, é apenas uma conversa comigo mesmo, tentando entender os ciclos das conexões humanas e colocando em palavras o que penso neste momento. Hoje, em 2025, esse é meu ponto de vista. Mas sei que a vida muda, e com ela mudam também as nossas percepções. Nenhuma ideia é definitiva; tudo é fluido, tudo se adapta.


Quando a Nostalgia se Torna uma Armadilha

Mudar para longe do lugar onde cresci me fez sentir, muitas vezes, saudade de casa. E, na tentativa de suprir essa falta, eu acabava recorrendo a relações que já tinham ficado no passado. O problema é que, ao tentar reviver essas conexões, percebia que muitas delas já não existiam da mesma forma. Era frustrante.

Acho que, de certa forma, nós tentamos repetir boas experiências. Criar laços novos nunca foi algo simples para mim. O início de qualquer amizade parece um ciclo bem definido: você conhece alguém, se encanta pelas primeiras interações, começa a conversar frequentemente, aquilo se torna parte da sua rotina e, antes que perceba, aquela pessoa se torna presente nos seus dias.

De repente, você ouve uma música e lembra dela. Vê uma cena na TV e sente vontade de comentar. Algo engraçado acontece na rua e você pensa: "Preciso contar isso para fulano!" Sem perceber, a pessoa passa a ocupar um espaço importante na sua vida. Mas... nem sempre esse envolvimento acontece nas duas direções.


Quando uma Conexão se Torna Apenas um Eco

Muitas vezes, aquela pessoa que se tornou tão importante para você só estava disponível por um momento de fragilidade dela. Talvez estivesse passando por uma fase ruim, por solidão, por uma situação pessoal difícil. E, assim que se recupera, simplesmente segue adiante, deixando para trás a conexão que, para você, ainda parecia forte.

Então acontece aquele momento incômodo: você manda uma mensagem e ela demora dias para ser respondida. Às vezes, nem chega a ser. Outras vezes, vem uma resposta monossilábica, fria, que não permite que a conversa continue. Aos poucos, percebe que o que você sente por aquela pessoa não é mais real – é apenas uma memória idealizada do que a amizade já foi.

E isso não significa que todo mundo precise estar sempre disponível. A vida adulta é complicada. Temos dias atribulados, problemas, momentos em que não conseguimos dar atenção nem para nós mesmos. Mas existe uma grande diferença entre uma amizade que esfria por circunstâncias da vida e uma que já não existe mais – apenas nós que não percebemos.


O Ciclo que se Repete

O que torna essa parte da vida adulta quase cruel é que, enquanto você tenta conversar com alguém que não tem o menor interesse em responder, essa pessoa, por sua vez, pode estar tentando conversar com outra que a ignora da mesma maneira.

E, ao mesmo tempo, existem outras pessoas que gostariam de estar conversando com você. Mas será que elas estão ali por quem você é, ou apenas porque estão passando pelo mesmo ciclo? Talvez estejam disponíveis porque, naquele momento, estão no lugar onde você já esteve – carentes de uma nova conexão.

E, assim, tudo se repete. Você constrói um vínculo, se acostuma com a presença de alguém, e, um dia, percebe que mais um desconhecido foi adicionado à sua coleção de memórias.


A Procissão dos Desconhecidos

Às vezes, olho minhas redes sociais, fotos antigas, lembranças de conversas e momentos compartilhados... E vejo uma procissão de pessoas que já foram parte do meu dia a dia, mas que hoje não passam de estranhos.

O mais curioso é que, em algum momento, cada uma delas parecia essencial. Pessoas que um dia foram um porto seguro, mas que agora são apenas rostos em meio a tantos outros que passaram pela minha vida.

E talvez essa seja apenas a natureza das conexões humanas: efêmeras, voláteis, imprevisíveis.

Ou talvez eu ainda não tenha me acostumado com esse mundo onde tudo – até as pessoas – parece descartável.

 

 

~Dário Junior

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